Por Dra. Louize Galletti
Muitas vezes, quando pensamos na saúde dos nossos olhos, focamos na córnea, na íris ou na retina. No entanto, a maior parte do volume do seu olho é preenchida por uma estrutura fascinante e complexa chamada corpo vítreo. Como oftalmologista, percebo que muitas dúvidas dos pacientes sobre “manchas na visão”, envelhecimento ocular e descolamentos surgem justamente de alterações nesta estrutura.
Neste artigo, preparei um guia completo para que você entenda a anatomia, o envelhecimento e as condições que afetam o vítreo, baseado nas mais recentes evidências científicas sobre a interface vitreorretiniana.

O Que Exatamente é o Vítreo?
Imagine um gel transparente que preenche o interior do globo ocular. Este é o vítreo. Ele ocupa cerca de 4 mL de volume e é composto majoritariamente por água, incríveis 98%. Os 2% restantes, porém, são fundamentais: consistem em proteínas estruturais e componentes da matriz extracelular que dão ao vítreo sua consistência gelatinosa.
A principal proteína estrutural aqui é o colágeno, sendo que o tipo II compreende 75% de todo o colágeno vítreo. É essa rede de fibras que mantém a estrutura do gel. Além disso, temos o hialuronato (ou ácido hialurônico), um grande poliânion que desempenha um papel crucial no equilíbrio iônico e na hidratação, podendo até influenciar como certos medicamentos se difundem dentro do olho, um fator importante em tratamentos para condições como o diabetes.
Uma curiosidade interessante é que o vítreo possui altas concentrações de ascorbato, que atua como um antioxidante. Isso ajuda a proteger as proteínas do cristalino contra danos oxidativos, retardando a formação da catarata.
A “Cola” Biológica: A Interface Vitreorretiniana
O vítreo não está apenas solto dentro do olho; ele possui pontos de contato e adesão com a retina (a camada nervosa no fundo do olho). Essa conexão é chamada de interface vitreorretiniana.
A aderência entre o vítreo e a retina não é igual em todos os pontos. Existe uma “cola” biológica feita de fibronectina e laminina que promove uma adesão que chamamos de “fascial”. No entanto, existem áreas onde essa adesão é muito mais forte e clinicamente relevante:
1. Base Vítrea: É o local de maior aderência. É uma estrutura tridimensional onde as fibras de colágeno são densas e “entrelaçadas”, o que predispõe a rupturas na retina caso haja tração excessiva.
2. Disco Óptico e Vasos: O vítreo também se prende ao redor do nervo óptico e sobre os grandes vasos sanguíneos da retina. Em alguns casos, o vítreo pode estar tão preso aos vasos que forma “corpos semelhantes a aranhas”, onde as fibras vítreas se enrolam nos vasos.
3. Mácula: Na região central da visão, a mácula, o córtex vítreo é mais fino e a adesão ocorre em uma zona anular.
O Envelhecimento do Olho: Liquefação e Descolamento
Com o passar dos anos, o corpo vítreo sofre modificações naturais. Após os 40 anos, é comum ocorrer um aumento no volume líquido dentro do gel, formando bolsas chamadas “lacunas”. Esse processo é conhecido como liquefação vítrea e acontece devido a alterações no colágeno e nos componentes como o sulfato de condroitina.
À medida que o vítreo se liquefaz, ele pode começar a se soltar da retina. Isso nos leva a um dos diagnósticos mais comuns no consultório: o Descolamento do Vítreo Posterior (DVP).
A incidência do DVP aumenta com a idade, afetando mais de 50% das pessoas acima dos 50 anos e mais de 60% entre 66 e 86 anos.
O DVP é perigoso?
Na maioria das vezes, o DVP é um evento natural e inócuo, onde o vítreo se separa de forma limpa da retina. Quando o vítreo se solta do nervo óptico, pode deixar uma marca visível no exame de fundo de olho chamada anel de Weiss.
No entanto, precisamos estar atentos ao DVP anômalo. Isso ocorre quando a separação não é limpa ou completa. Se parte do vítreo permanece aderida enquanto o restante traciona (puxa), podemos ter complicações:
• Buraco Macular: Se a tração ocorrer no centro da visão.
• Membrana Epirretiniana (Pucker Macular): Relacionada à proliferação de células na superfície da retina.
• Roturas Retinianas: Se a tração ocorrer na periferia, onde a adesão é forte, pode rasgar a retina e levar ao descolamento de retina regmatogênico.
Células que Defendem e Atacam: Os Hialócitos
Dentro do córtex vítreo, existem células chamadas hialócitos. Elas funcionam como sentinelas, podendo iniciar respostas imunes e “limpar” detritos (fagocitose). Porém, em situações patológicas, como no descolamento do vítreo anômalo, essas células podem permanecer na mácula e proliferar, formando membranas que distorcem a visão (Pucker Macular).
Quando a Cirurgia é Necessária?
Em casos de descolamentos de retina complexos ou inflamações graves (Vitreorretinopatia Proliferativa – PVR), células do epitélio pigmentado da retina (EPR) e células gliais migram para o vítreo, estimuladas por fatores de crescimento. Isso cria cicatrizes que puxam a retina. Nesses casos, a intervenção cirúrgica (vitrectomia) é fundamental para remover essas trações e restaurar a anatomia.
Conclusão
O vítreo é muito mais do que apenas água; é uma estrutura viva, dinâmica e essencial para a fisiologia ocular. Seja mantendo a transparência ou protegendo contra a catarata, ele desempenha funções vitais. Porém, suas alterações com a idade exigem acompanhamento.
Se você notou mudanças na sua visão, manchas ou redução na sensibilidade ao contraste, agende uma consulta. Entender o que acontece no interior dos seus olhos é o primeiro passo para preservar sua visão.