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Retinopatia da Prematuridade: O que os pais de prematuros precisam saber para proteger a visão de seus filhos

Por Dra. Louize Galletti

Como oftalmologista, acompanho de perto a luta e a vitória dos “pequenos guerreiros” nas UTIs neonatais. Uma das maiores preocupações que compartilho com os pais nesses momentos é sobre a saúde ocular dos bebês nascidos antes do tempo. O tema de hoje é fundamental: a Retinopatia da Prematuridade (ROP).

Muitas famílias chegam ao consultório com dúvidas sobre por que isso acontece e como tratamos. Neste artigo, vou traduzir os termos técnicos e explicar, com base nas evidências científicas mais atuais, como cuidamos da visão do seu bebê.

O que causa a ROP e quem corre risco?

A ROP é uma doença que afeta os vasos sanguíneos da retina em desenvolvimento. Ela ocorre porque apenas retinas com vascularização incompleta (imaturas) são suscetíveis à formação de vasos anormais.

O principal fator de risco historicamente conhecido é a duração do uso de oxigênio suplementar. No entanto, não é apenas o oxigênio: o baixo peso ao nascer (especialmente abaixo de 1.251g), a raça branca e a gemelaridade também são fatores importantes.

É um processo delicado: o oxigênio em excesso causa uma vasoconstrição (aperto) nos vasos da retina, que pode levar à obliteração (fechamento) desses capilares. Quando o bebê sai desse ambiente de oxigênio alto, a retina sofre com falta de oxigenação (hipóxia/isquemia), o que estimula a produção de uma proteína chamada VEGF. O aumento do VEGF faz com que novos vasos cresçam desordenadamente, levando à neovascularização.

A importância vital da Triagem (O “Teste do Olhinho” no Prematuro)

A prevenção da cegueira por ROP depende do momento certo do exame. A triagem deve ser feita obrigatoriamente em bebês com peso menor que 1.500g e/ou nascidos com idade gestacional (IG) menor que 30 semanas.

O calendário do primeiro exame é rigoroso:

• Bebês nascidos com 27 semanas ou menos: exame na 31ª semana.

• Bebês nascidos entre 28 e 32 semanas: exame 4 semanas após o nascimento.

Para realizar o exame, utilizamos colírios específicos (ciclopentolato e fenilefrina) para dilatar a pupila, sempre com cuidado para remover o excesso e evitar efeitos colaterais no bebê.

Uma boa notícia para acalmar o coração dos pais: se o bebê atingir 45 semanas de idade gestacional sem desenvolver a doença na fase pré-limiar ou pior, o risco de perda visual por ROP torna-se mínimo.

Entendendo a gravidade: Zonas e Estágios

Nós, médicos, classificamos a doença baseados na localização (Zonas) e na gravidade (Estágios).

Zonas: A retina é dividida em Zona 1 (centro, perto do nervo óptico), Zona 2 e Zona 3 (periferia). Quanto mais central a doença (Zona 1 ou Zona 2 posterior), mais agressiva ela tende a ser.

Estágios: Vai do Estágio 1 (uma linha de demarcação entre a retina vascularizada e a avascular) até o Estágio 5 (descolamento total da retina).

Existe um sinal de alerta que chamamos de Doença PLUS. Isso ocorre quando as veias ficam dilatadas e as artérias tortuosas no polo posterior do olho. É um sinal de gravidade e incompetência vascular progressiva, indicando que o tratamento pode ser necessário com urgência.

Há também uma forma chamada “ROP posterior agressiva”, que evolui muito rápido (“rush disease”) e pode não passar pelos estágios clássicos, exigindo diagnóstico e ação imediata.

Como é feito o tratamento?

O objetivo do tratamento é preservar a visão e impedir o descolamento da retina. Hoje, a fotocoagulação a laser é o padrão ouro, sendo superior à crioterapia (congelamento) em muitas situações, pois gera menos inflamação e sequelas.

O estudo ETROP provou que a intervenção precoce traz melhores resultados visuais. Seguimos um algoritmo preciso: tratamos imediatamente olhos com ROP Tipo 1 (que inclui doença Plus em Zonas 1 ou 2, ou Estágio 3 na Zona 1).

Em casos mais avançados, onde já ocorre o descolamento de retina (Estágios 4 e 5), pode ser necessária uma cirurgia chamada vitrectomia (VVPP ou a céu aberto), embora esses casos sejam mais complexos e tenham componente exsudativo associado.

O cuidado continua: Acompanhamento a longo prazo

Mesmo após a alta da UTI ou o tratamento da ROP, o acompanhamento oftalmológico deve continuar por toda a infância. Olhos que tiveram ROP, mesmo que a doença tenha regredido, apresentam maior risco para:

1. Miopia: Cerca de 20% dos bebês com peso <1251g desenvolvem miopia nos primeiros 2 anos. A incidência aumenta conforme a gravidade da ROP.

2. Estrabismo e Ambliopia: Aos 9 meses, 30% das crianças com ROP pré-limiar de alto risco podem apresentar estrabismo.

3. Outras alterações: Como astigmatismo, catarata ou até glaucoma tardio.

Conclusão

A Retinopatia da Prematuridade é uma condição séria, que pode progredir para cegueira nos primeiros 3 meses de vida se não for vigiada. No entanto, com a triagem no tempo certo e o tratamento adequado, podemos mudar o destino da visão dessas crianças.

Se o seu bebê se enquadra nos critérios de risco, certifique-se de que os exames de fundo de olho estão sendo realizados conforme o protocolo. A visão do seu filho é o nosso foco.

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Este artigo tem caráter informativo e não substitui a consulta médica. Agende uma avaliação para um diagnóstico preciso.

Com vasta experiência e dedicação à saúde ocular,
Dra. Louize oferece um atendimento personalizado e de excelência, priorizando sempre o bem-estar e a qualidade
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