
Por Dra. Louize Galletti
Olá! Como oftalmologista, minha prioridade é trazer para vocês as informações mais atualizadas e seguras sobre a saúde dos nossos olhos. Hoje, vamos nos aprofundar em um tema de extrema relevância em nossa área: a Degeneração Macular Relacionada à Idade (DMRI). Sabemos que esta condição é uma das principais causas de perda de visão irreversível em países desenvolvidos. A maioria dos pacientes recebe o diagnóstico inicial na fase em que as drusas começam a aparecer, mas é na forma tardia e avançada da doença que o risco de perda visual severa se agrava de fato.
O Que É a Neovascularização Coroidal Subclínica?
A ciência médica evolui rapidamente e muda as formas como compreendemos certas doenças. Por muito tempo, acreditou-se que a DMRI do tipo “seca” era desprovida da formação de novos vasos. Porém, análises histopatológicas em olhos com o diagnóstico clínico de DMRI seca surpreenderam ao revelar vasos sanguíneos recém-formados invadindo o espaço subretiniano. É a isso que damos o nome de neovascularização coroidal subclínica (NVC subclínica), considerada uma precursora e importante fator de risco para o desenvolvimento da temida DMRI exsudativa (a forma “úmida” que sangra ou acumula fluido).
Hoje, para detectar essa alteração de maneira precoce e não invasiva no consultório, utilizamos a tecnologia de Angiografia por Tomografia de Coerência Óptica (OCTA). Esta é uma ferramenta extraordinária que substitui exames antigos com contraste e nos permite enxergar o fluxo de sangue abaixo da retina, identificando o problema antes mesmo que surjam sintomas ou vazamentos significativos.
O Estudo: Monitorando o Olho “Companheiro”
Gosto de fundamentar minhas consultas e tratamentos em evidências científicas sólidas. Um estudo prospectivo extremamente revelador acompanhou 34 pacientes que já possuíam a DMRI neovascular (exsudativa) em um olho. A grande questão dos pesquisadores era: o que acontece com o outro olho, aquele que ainda apresenta apenas a forma seca da doença?.
Esses pacientes foram acompanhados por um período médio de 15 meses. Foi constatado que a prevalência dessa vascularização silenciosa não é irrelevante. Dos 34 olhos “secos” examinados, cinco (aproximadamente 14,7%) já apresentavam a NVC subclínica desde o início.
A Importância da Vigilância: A Taxa de Conversão
O comportamento dessa neovascularização exige atenção constante. Durante o acompanhamento com OCTA, notou-se que a área média desses novos vasos se manteve relativamente estável ao longo do tempo (passando de 0,131 mm² para 0,136 mm²). No entanto, um desses cinco olhos (20%) converteu para a forma ativa e exsudativa da doença, passando a demandar tratamento com injeções de terapia anti-VEGF. É interessante notar que o vaso deste único olho que progrediu apresentou um aumento em sua área de superfície, indo de 0,139 mm² para 0,164 mm² antes de causar o acúmulo de fluido. Essa taxa de conversão de 20% ressalta a importância imensa de manter uma vigilância rigorosa nesses pacientes. Por outro lado, nenhum dos 29 olhos sem a NVC subclínica desenvolveu o quadro exsudativo neste mesmo período.
O Efeito Protetor: Uma Descoberta Intrigante
Aqui chegamos ao ponto mais fascinante e contra-intuitivo para muitos. Se a NVC subclínica apresenta risco de evoluir para a forma úmida, por que não tratamos imediatamente? A resposta envolve o comportamento da atrofia geográfica, que é a perda progressiva das células da retina.
No mesmo estudo, os pesquisadores avaliaram a velocidade de crescimento dessas áreas atrofiadas. Nos quatro olhos que não possuíam NVC subclínica, a atrofia geográfica cresceu a uma taxa média de 0,82 mm² por ano. Contudo, no olho que abrigava a NVC subclínica, a atrofia cresceu de forma incrivelmente lenta: apenas 0,02 mm² por ano. Essa descoberta apoia a teoria de que esses novos vasos podem exercer um efeito protetor contra a progressão da atrofia. Acredita-se que esse processo pode ajudar a reduzir o estresse oxidativo na mácula. Por isso, a recomendação atual é ter cautela antes de iniciar o uso de injeções anti-VEGF numa NVC puramente subclínica, esperando até o momento exato em que a exsudação se confirme.
Avaliando a Perfusão Vascular
Outro dado tecnológico importante medido pela equipe foi o percentual de não perfusão da coriocapilar (PCAN), uma forma de entender a falta de circulação ao redor da mácula. Curiosamente, os pesquisadores descobriram que não houve uma diferença significativa no nível de oxigenação (ou falta dele) entre os pacientes que evoluíram para a forma exsudativa e aqueles que permaneceram na forma seca. Isso nos mostra que a disfunção da circulação tem seu papel, mas não atua sozinha como fator desencadeante, tornando a doença um desafio multifatorial contínuo para a ciência oftalmológica.
Conclusão e Cuidados Contínuos
O que tudo isso significa para você? Significa que possuir uma neovascularização subclínica na DMRI não é motivo para pânico, mas sim um alerta. O conhecimento científico nos diz que o tratamento antecipado nem sempre é a melhor resposta, dadas as defesas naturais do corpo contra a atrofia.
O verdadeiro segredo do sucesso no cuidado de sua visão reside no acompanhamento individualizado, frequente e guiado pela melhor tecnologia disponível. Exames rotineiros de imagem com OCTA nos darão os dados morfológicos preditivos essenciais, mostrando exatamente o momento em que se deve ou não intervir. Conte comigo e com a ciência mais atual para traçarmos juntos o melhor caminho em prol da longevidade dos seus olhos!