Por Dra. Louize Galletti
Olá! Sejam bem-vindos ao meu espaço dedicado à saúde ocular. Como oftalmologista, frequentemente me deparo com condições que afetam a visão de forma silenciosa e que exigem um olhar clínico extremamente apurado. Hoje, quero compartilhar com vocês a minha interpretação e explicação sobre uma doença fascinante e complexa: a Síndrome da Histoplasmose Ocular Presumida (POHS), popularmente conhecida apenas como Histoplasmose Ocular.

O Que é a Histoplasmose e Como Ela Chega aos Olhos?
A histoplasmose é, originalmente, uma infecção sistêmica causada por um fungo chamado Histoplasma capsulatum. Acredita-se que a infecção inicial ocorra através do trato respiratório. Muitas vezes, o paciente apresenta apenas sintomas respiratórios leves, semelhantes a uma gripe comum. O contágio está fortemente associado à exposição ambiental a escavações, construções antigas, contato com aves/galinhas ou visitas a cavernas habitadas por morcegos.
O que torna essa doença intrigante para nós, oftalmologistas, é que, no momento dessa infecção sistêmica, o fungo pode causar uma infecção focal na coroide (a camada vascular do olho). A ciência já comprovou essa relação isolando o DNA do fungo tanto no sangue periférico quanto em olhos diagnosticados com a doença, além da forte correlação com testes cutâneos positivos para histoplasmina.
Com o passar dos anos, a infiltração de células de defesa (linfócitos) ao redor dessa lesão inicial faz com que ela aumente, rompendo estruturas internas do olho e se tornando clinicamente visível nos nossos exames de fundo de olho.
Os Sinais Claros da Doença: O Que Eu Procuro no Seu Exame
O diagnóstico da Histoplasmose Ocular é essencialmente clínico e exige muita atenção aos detalhes. Para confirmar o quadro, procuro a presença de pelo menos duas das seguintes lesões, sempre lembrando que a ausência de inflamação ocular ativa é uma característica fundamental desta síndrome:
- “Manchas Histo” (Cicatrizes Coroidais Focais): São pequenas lesões atróficas e discretas, menores que o disco óptico, espalhadas pela periferia ou na mácula.
- Atrofia Peripapilar: Cicatrizes ao redor do nervo óptico.
- Neovascularização Coroidal (CNV): O crescimento de vasos sanguíneos anormais e suas sequelas, como hemorragias ou cicatrizes.
Na maioria das vezes, a doença atinge ambos os olhos, embora possa se apresentar de forma mais grave em apenas um deles no início
Fatores de Risco e a Perda Visual (Metamorfosia)
É crucial entender que as lesões atróficas (as manchas histo) são tipicamente assintomáticas. O grande perigo surge quando a doença evolui para a Neovascularização Coroidal (CNV). Quando esses vasos anormais se formam e vazam fluidos sob a mácula (o centro da visão), o paciente passa a sofrer com perda de acuidade visual e metamorfosia (distorção das imagens).
A idade média dos pacientes com lesões que ameaçam a visão fica entre a quarta e quinta década de vida, sendo a doença mais relatada em caucasianos. Fatores como escolaridade e tabagismo aumentam o risco. Além disso, sabemos que existe uma forte predisposição genética: pacientes com antígenos como HLA-B7 e HLA-DRw2, ou com variações nos genes ARMS2, C3, MT-NDH2 e CFH, têm maior risco de desenvolver essas lesões graves.
A Importância do Diagnóstico Diferencial
No consultório, a minha responsabilidade é garantir que não estamos confundindo a Histoplasmose com outras doenças, pois o tratamento muda completamente. Por exemplo:
- Não é Degeneração Macular Relacionada à Idade (DMRI), pois a DMRI ocorre em pacientes mais velhos (>50 anos), apresenta drusas e geralmente não tem atrofia na periferia da retina.
- Não é Coroidite Multifocal, pois esta apresenta inflamação ativa, o que não ocorre na histoplasmose.
- Não é Sarcoidose, que costuma vir acompanhada de inflamação, exames de sangue alterados (enzima conversora de angiotensina elevada) e problemas pulmonares visíveis no raio-X.
Como Tratamos e Protegemos a Sua Visão
Se identificarmos a formação de vasos anormais (CNV), precisamos agir. O tratamento evoluiu muito:
- Laser: A fotocoagulação com laser (como argônio ou criptônio) provou ser benéfica para retardar a perda de visão quando as lesões não estão exatamente no centro da mácula (extrafoveais ou justafoveais).
- Terapias Modernas: Para lesões bem no centro da visão (subfoveais), utilizamos a Terapia Fotodinâmica (PDT) — aprovada pelo FDA — e injeções de medicamentos Anti-VEGF. O uso combinado dessas duas terapias (PDT + Anti-VEGF) tem se mostrado a melhor opção para estabilizar as lesões e recuperar a visão.
A saúde dos seus olhos muitas vezes reflete histórias antigas do seu próprio corpo. Ter um diagnóstico preciso e precoce é o que salva a visão de danos irreversíveis. Agende uma avaliação de rotina! Através de um mapeamento de retina detalhado, podemos identificar esses sinais silenciosos e garantir que você continue enxergando o mundo com clareza e segurança.