Por Dra. Louize Galletti
Olá, queridos pacientes e leitores. Hoje quero compartilhar com vocês a minha visão clínica sobre um avanço diagnóstico fascinante e extremamente promissor na oftalmologia, especificamente voltado para quem lida com a Degeneração Macular Relacionada à Idade na sua forma neovascular (nAMD). Como médica oftalmologista, acompanho diariamente o impacto que essa condição traz aos meus pacientes, envolvendo o acúmulo prejudicial de fluidos intra-retinianos e sub-retinianos, que afetam diretamente a capacidade visual.
Historicamente, para compreendermos a origem desses fluidos e estudarmos as características morfológicas da vasculatura retiniana, precisávamos sempre recorrer a procedimentos angiográficos tradicionais, como a angiofluoresceinografia (FA) e a angiografia com indocianina verde (ICGA). Embora essas técnicas sejam eficientes, elas exigem a infusão intravenosa de corantes e contrastes, o que pode carregar riscos de efeitos colaterais indesejados, como alergias, ou impor sérias limitações para pacientes com problemas renais ou hepáticos.

O que é a OCT-Angiografia (OCT-A) e por que ela é inovadora?
A grande novidade tecnológica que tem transformado a nossa abordagem nos consultórios é a OCT-Angiografia, ou simplesmente OCT-A. Diferente dos métodos de imagem mais antigos, a OCT-A é um procedimento não invasivo e totalmente livre do uso de contrastes venosos. A inteligência por trás dessa tecnologia baseia-se na angiografia de amplitude de descorrelação de espectro dividido (SSADA), um sistema que permite capturar de forma óptica o movimento das partículas dispersas dentro dos vasos sanguíneos, focando principalmente nos glóbulos vermelhos.
Na nossa prática diária, isso significa que a máquina nos fornece uma imagem tridimensional incrivelmente detalhada de toda a circulação da retina e da coroide, sem que precisemos aplicar injeções de contraste no braço do paciente. Como não há vazamento de corantes na retina, nós evitamos os fenômenos de extravasamento que muitas vezes mascaram e escondem a real estrutura da rede de neovascularização nos exames convencionais. É um ganho formidável em segurança e conforto para vocês.
A Precisão no Diagnóstico da Neovascularização de Coroide
Na avaliação inicial para o diagnóstico da membrana neovascular de coroide (CNV), que surge na degeneração macular, a OCT-A tem se mostrado uma ferramenta adjuvante de imenso valor. Em estudos observacionais rigorosos que baseiam minha conduta, a capacidade geral da OCT-A para detectar redes de vasos anormais na linha de base foi de 64,4%. O mais interessante é que essa taxa de detecção se mantém independentemente de o paciente já ter recebido tratamento prévio ou de ser um caso recém-descoberto.
No entanto, como oftalmologista, devo analisar cada caso de forma minuciosa, pois o desempenho do exame varia conforme o subtipo da doença. A OCT-A conseguiu detectar 75,7% dos casos de CNV clássica, mas apresentou uma taxa de 48,0% para os casos de CNV oculta. E por que isso acontece? Percebemos que as lesões ocultas frequentemente vêm acompanhadas de descolamentos do epitélio pigmentar (PED) altos ou serosos. Essas grandes alterações anatômicas deslocam as estruturas da retina, o que compromete o reconhecimento do fluxo de sangue pelo aparelho. Ainda assim, a OCT-A brilha ao reduzir a necessidade de testes invasivos na grande maioria dos pacientes.
Padrões de Lesão e a Importância da Qualidade do Exame
Com as imagens em alta definição, eu consigo identificar diferentes e impressionantes padrões estruturais que os vasos doentes formam. O formato que observamos com mais frequência é o chamado “seafan” (semelhante a um leque do mar), presente em cerca de 50% das membranas que avaliamos. Também vemos padrões nodulares, circulares e, até mesmo, no formato de uma “roda de renda”, que muitas vezes apresenta vasos nutrizes muito definidos ao redor de um halo escuro.
Vale ressaltar que a precisão da minha leitura clínica depende de capturas perfeitas. O movimento ocular durante o exame pode gerar pequenos defeitos na imagem, chamados de artefatos de movimento. É por isso que, tecnicamente, eu prefiro utilizar padrões de varredura mais amplos. As capturas em grade de 6×6 milímetros provaram ser superiores às de 3×3 milímetros, fornecendo muito mais imagens livres de defeitos e aumentando significativamente a nossa taxa de detecção precisa da doença, já que imagens mais estreitas (3×3) estão mais suscetíveis à instabilidade gerada por pacientes com dificuldades visuais de focar e fixar o olhar.
O Papel da OCT-A no Acompanhamento e Tratamento
A degeneração macular é uma condição que requer um acompanhamento constante, dada a natureza crônica e propensa a recidivas da doença. Durante as terapias com as injeções intraoculares chamadas anti-VEGF, a OCT-A se torna uma grande aliada no monitoramento. Consigo observar alterações morfológicas específicas da resposta da membrana ao tratamento, como o encolhimento da rede neovascular direcionado ao centro e o ressecamento, ou eliminação, das pequenas conexões vasculares nas bordas (anastomoses periféricas).
Na nossa rotina, quando comparamos as avaliações estruturais da retina pela OCT tradicional e as análises de fluxo da OCT-A, verificamos que as informações se alinham perfeitamente em 53% das vezes. Contudo, a verdadeira magia desta tecnologia está nos 47% dos casos onde há divergência. Por exemplo, a OCT convencional pode indicar que houve melhora com a absorção do líquido inflamado, mas a OCT-A pode me revelar paralelamente que o fluxo denso de vasos da membrana piorou e aumentou. Essa aparente discordância é um trunfo: ao invés de suspender o cuidado pela falta de líquidos, essas informações me ajudam a manter um estado de alerta e a encurtar os intervalos de acompanhamento, evitando recidivas antes mesmo de novos fluidos aparecerem. Esse ciclo de remodelamento vascular que antecede o problema era algo invisível no passado.
Em conclusão, a OCT-Angiografia representa uma nova perspectiva e um horizonte expandido em meu consultório. Trata-se de um meio diagnóstico mais veloz, indolor e muito menos invasivo do que as angiografias antigas, e que tem uma real capacidade de mudar a maneira como construímos os protocolos de cuidados e injeções da sua visão