Por Dra. Louize Galletti
A Degeneração Macular Relacionada à Idade (DMRI) continua sendo uma das principais causas de deficiência visual em adultos, especialmente em sua forma exsudativa. No meu consultório, uma das maiores preocupações dos pacientes em tratamento é saber o momento certo de realizar ou repetir as injeções intravítreas (anti-VEGF). Hoje, gostaria de compartilhar como a tecnologia de ponta, especificamente a OCT Angiography (OCT-A), tem transformado nossa capacidade de decisão clínica, oferecendo um acompanhamento mais preciso e menos invasivo.

O Desafio do Diagnóstico Tradicional
Durante muito tempo, a angiofluoresceinografia (FA) foi o padrão-ouro para diagnosticar a neovascularização de coroide (CNV), o crescimento anormal de vasos sanguíneos característico da DMRI exsudativa. No entanto, esse exame exige o uso de contrastes venosos, que podem causar efeitos colaterais sistêmicos.
Além disso, muitas vezes dependemos da OCT estrutural convencional, que busca sinais de “vazamento” (fluido subretiniano ou intrarretiniano) para decidir sobre o retratamento,. O problema é que a presença de fluido já é um sinal de que a atividade da doença ocorreu. A pergunta que a ciência buscou responder é: podemos detectar a atividade da lesão antes que o fluido prejudique a visão?
OCT-A: Visualizando a Microvasculatura sem Contraste
A OCT Angiography (OCT-A) mudou esse cenário. Ela nos permite uma visualização clara e em profundidade da microvasculatura da retina e da coroide sem a necessidade de injeção de corante. Estudos recentes indicam que a OCT-A pode detectar neovascularizações com a mesma sensibilidade dos exames com contraste, mas com muito mais segurança e rapidez.
Em uma análise detalhada de pacientes com DMRI exsudativa, identificamos critérios qualitativos na imagem da OCT-A que funcionam como marcadores preditivos de atividade da doença. Isso significa que podemos olhar para a forma dos vasos sanguíneos e prever se a lesão está ativa e precisa de tratamento.
Os 4 Sinais de Alerta na OCT-A
Ao analisar as imagens de meus pacientes, busco quatro características principais na rede vascular da lesão, que foram validadas como preditores de atividade,:
1. Pequenos Vasos Ramificados (Tiny Branching Vessels): A presença de capilares finos e emaranhados.
2. Arcada Anastomótica Periférica: Conexões entre os vasos na borda da lesão.
3. Alças Vasculares (Loops): Anastomoses internas entre pequenos vasos.
4. Halo Hipointenso Perilesional: Uma área escura ao redor da lesão, indicando alteração na coriocapilar.
Dentre estes, a presença de pequenos vasos ramificados e da arcada periférica mostrou-se crucial. Em análises estatísticas, a combinação desses critérios na OCT-A foi capaz de prever a atividade da lesão (exsudação) com uma precisão impressionante de até 97,6% quando todos os critérios são considerados,.
Por Que a Morfologia dos Vasos Importa?
A base biológica para isso é fascinante. Vasos maduros e “troncos” grossos tendem a ser cobertos por pericitos, tornando-os resistentes à terapia anti-VEGF. Já os pequenos vasos ramificados, que brotam na periferia da lesão, são imaturos e carecem dessa proteção, sendo, portanto, o alvo principal e mais vulnerável ao tratamento.
Quando observamos esses pequenos vasos e arcadas na OCT-A, estamos vendo a “frente de batalha” da doença. Identificá-los nos permite agir proativamente. Inclusive, a OCT-A pode revelar sinais de atividade vascular antes mesmo que o fluido seja visível na OCT estrutural tradicional, permitindo uma detecção precoce de recorrências.
Conclusão: Um Tratamento Mais Assertivo
A incorporação da avaliação qualitativa da OCT-A na prática clínica nos fornece parâmetros adicionais valiosos. O objetivo final é sempre preservar a arquitetura macular e a acuidade visual do paciente. Com essa tecnologia, podemos guiar a decisão de tratamento de forma personalizada, não apenas reagindo ao fluido, mas antecipando a atividade da doença para proteger sua visão com maior eficácia.
Se você tem dúvidas sobre o monitoramento da sua DMRI ou sobre como essa tecnologia pode beneficiar seu caso, agende uma consulta. A tecnologia é nossa aliada na preservação da sua saúde ocular.
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Referências baseadas no estudo: Coscas F, et al. Optical coherence tomography angiography in exudative age-related macular degeneration: a predictive model for treatment decisions. Br J Ophthalmol 2019.