Por Dra. Louize Galletti
Na oftalmologia, e especificamente no estudo da retina, muitas vezes atuamos como verdadeiros detetives. Sintomas como visão turva, floaters (moscas volantes) ou flashes de luz podem esconder condições complexas que exigem um olhar treinado e tecnologia de ponta para o diagnóstico correto.
Hoje, gostaria de compartilhar com vocês, de forma clara, como interpretamos dois grupos fascinantes de achados na retina: as variações na periferia retiniana e as chamadas “Síndromes dos Pontos Brancos” (White Spot Syndromes).

A Revolução da Angiografia de Campo Amplo (Widefield)
Para entender a doença, primeiro precisamos entender o que é “normal”. Recentemente, estudos com angiografia de fluoresceína de campo amplo (Widefield) mudaram nossa percepção sobre a anatomia da retina periférica. Essa tecnologia nos permite visualizar até 200 graus da retina, muito mais do que as câmeras tradicionais.
É fascinante notar que, mesmo em olhos considerados sem doença vascular periférica (como em pacientes com membrana epirretiniana ou nevus de coroide), encontramos variações anatômicas que antes poderiam ser confundidas com patologias.
Em nossa prática e na literatura, observamos que:
• Vasos em “ângulo reto”: Cerca de 70% dos olhos apresentam vasos que fazem curvas abruptas na periferia.
• Ausência de detalhes capilares: Surpreendentemente, quase 98% dos olhos mostram áreas onde não vemos os capilares periféricos detalhados.
• Cruzamento da rafe horizontal: Antigamente, ensinava-se que os vasos retinianos respeitavam uma linha horizontal imaginária. Hoje sabemos que, na periferia, cerca de 45% dos olhos possuem vasos que cruzam essa linha.
Esses dados são cruciais para que eu possa diferenciar o que é uma variação do seu próprio corpo e o que é, de fato, uma doença que precisa de tratamento.
Entendendo as Síndromes dos Pontos Brancos (White Spot Syndromes)
Este é um grupo de doenças inflamatórias que afetam a retina externa, o epitélio pigmentar da retina (EPR) e a coroide. Elas se manifestam, muitas vezes, como múltiplas lesões claras no fundo do olho. Vamos conhecer as principais condições que diagnosticamos no consultório:
1. Birdshot (Coriorretinopatia de Birdshot)
Esta é uma condição crônica, bilateral, que afeta geralmente adultos ao redor dos 53 anos e tem uma leve predominância em mulheres.
• O que vemos: Múltiplas lesões cor de creme espalhadas ao redor do nervo óptico, lembrando marcas de chumbo de caça (“birdshot”).
• Genética: Existe uma forte ligação genética; mais de 90% dos pacientes são positivos para o marcador HLA-A29.
• Sintomas: Os pacientes podem queixar-se de visão turva, moscas volantes e, caracteristicamente, nictalopia (cegueira noturna) grave, mesmo que a acuidade visual pareça normal.
2. APMPPE | Em Português – Epiteliopatia Pigmentar Placóide Multifocal Posterior Aguda
Apesar do nome complexo, esta condição tem geralmente um prognóstico melhor.
• Perfil: Afeta adultos jovens (20-50 anos), homens e mulheres igualmente, muitas vezes após um quadro viral ou vacinação.
• Características: São lesões bilaterais, branco-amareladas (placóides), que cicatrizam rapidamente. A maioria dos pacientes vê melhora dos sintomas visuais dentro de 2 a 4 semanas.
3. Coroidite Serpiginosa
Diferente da anterior, esta é uma condição crônica e progressiva que exige tratamento mais agressivo para evitar perda visual permanente.
• Atenção: As lesões crescem de forma “serpeante” (como uma cobra) a partir do nervo óptico.
• Tratamento: O uso de imunossupressores é frequentemente necessário para controlar a inflamação e preservar a visão.
4. MEWDS (Síndrome dos Múltiplos Pontos Brancos Evanescentes)
Esta é uma condição curiosa que afeta principalmente mulheres jovens e míopes.
• Sintomas: Baixa de visão aguda, unilateral, com fotopsias (flashes de luz) e aumento do ponto cego.
• Evolução: O nome “evanescente” indica que os pontos brancos desaparecem sozinhos. O prognóstico é excelente e a recuperação visual costuma ocorrer em algumas semanas sem necessidade de intervenção.
5. PIC e Coroidite Multifocal (MFC)
Também muito comum em mulheres míopes. Na PIC (Coroidopatia Interna Ponteada), as lesões são pequenas e limitadas ao polo posterior do olho. O grande risco aqui, que monitoramos de perto, é o desenvolvimento de neovascularização de coroide (vasos anormais que sangram), o que ocorre em mais da metade dos pacientes com PIC.
6. AZOOR (Retinopatia Externa Oculta Zonal Aguda)
Uma doença que causa perda de campo visual (escotomas) e fotopsias persistentes.
• Diagnóstico: É desafiador porque o fundo do olho pode parecer normal no início. Utilizamos exames de imagem multimodais (como Autofluorescência e OCT) para identificar um padrão “trizonal” característico de dano aos fotorreceptores.
A Importância do Diagnóstico Preciso
Como você pode perceber, muitas dessas condições compartilham sintomas parecidos, como visão embaçada e flashes de luz, mas têm tratamentos e prognósticos completamente diferentes. Enquanto o MEWDS se resolve sozinho, a Coroidite Serpiginosa pode exigir imunossupressão a longo prazo.
No meu consultório, utilizamos uma combinação de exames, Retinografia, OCT (Tomografia de Coerência Óptica), Autofluorescência e Angiografia, para diferenciar essas patologias. Por exemplo, na angiografia com indocianina verde (ICGA), podemos ver lesões hipofluorescentes (escuras) que indicam inflamação na coroide, muitas vezes invisíveis ao exame clínico simples.
Se você notou alterações na sua visão, como manchas, flashes ou dificuldade de enxergar à noite, não ignore. Um diagnóstico detalhado é o primeiro passo para preservar a saúde dos seus olhos.