Por Dra. Louize Galletti
Olá! Sou a Dra. Louize Galletti, oftalmologista, e hoje quero compartilhar com vocês informações essenciais sobre uma condição que exige atenção e cuidado especializado: a Miopia Patológica. Muitas pessoas acreditam que a miopia se resolve apenas com o uso de óculos mais fortes, mas, na alta miopia, ocorrem alterações estruturais profundas no globo ocular que precisam ser monitoradas de perto.
Como especialista, minha intenção é traduzir a ciência para que você entenda exatamente o que acontece nos seus olhos e como podemos proteger a sua visão a longo prazo.

Quem está em risco e o que a genética nos diz? A miopia patológica tem um forte componente demográfico e genético, sendo mais prevalente nos países asiáticos e afetando mais frequentemente as mulheres. A ciência já identificou que loci genéticos, como MYP1-14 e a região 5q14 (que contém o gene GJD2 responsável por codificar a Conexina 36, ligada à neurotransmissão na retina), estão usualmente associados a essa condição. Além do próprio alongamento do globo ocular, o aumento da idade contribui significativamente para a retinopatia míope, causando o afinamento da retina.
O Alongamento do Olho e o Estafiloma Posterior O grande desafio da alta miopia é mecânico. Com o passar dos anos, especialmente em pacientes com mais de 40 anos, o fundo do olho sofre uma extensão mecânica. Isso leva ao desenvolvimento do estafiloma posterior, que é a protrusão de todas as camadas do globo ocular, uma alteração que não é comum em crianças, mas que acelera a degeneração macular míope em adultos.
Existem vários tipos topográficos de estafiloma, sendo o tipo “macular largo” o mais frequente. Curiosamente, olhos com um estafiloma mais raso costumam ser metabolicamente mais ativos, apresentando maior frequência de crescimento neovascular. Devido ao alongamento constante, a esclera (a parte branca do olho) e a coroide (camada vascular) afinam drasticamente, com perda de vasos e danos às fibras de colágeno.
O Sistema de Classificação e as “Lesões Plus” Para acompanharmos a progressão da doença, classificamos o fundo de olho em cinco categorias, que vão desde a categoria 0 (sem lesões) até a categoria 4 (atrofia macular grave). A atrofia pode ser difusa (amarelada e mal definida) ou irregular (branca-acinzentada e bem definida, onde a coroide inteira desaparece e a retina fica diretamente sobre a esclera).
Nós consideramos que um paciente tem “miopia patológica” quando ele atinge categorias mais avançadas ou quando apresenta as temidas “lesões plus”. Entre essas lesões, destacam-se as lacquer cracks (rupturas lineares amareladas na membrana de Bruch) e a Neovascularização da Coroide (CNV). Um sangramento sub-retiniano repentino, mesmo sem novos vasos formados, geralmente é um sinal visível de uma nova lacquer crack, que funciona como uma lesão precursora para o crescimento de vasos anormais.
A Ameaça da Neovascularização da Coroide (CNV Míope) A CNV míope é uma das principais causas de redução da visão central em altos míopes, desenvolvendo-se em 10% desses pacientes. Um dado de extrema importância é que 30% dos pacientes que desenvolvem essa complicação em um olho eventualmente apresentarão o mesmo problema no outro.
A CNV míope, também chamada de “CNV clássica”, apresenta baixa atividade exsudativa (muitas vezes sem edema ou descolamento de retina no exame de OCT), o que torna a Angiografia com Fluoresceína uma ferramenta poderosa e indispensável para detectá-la. Quando não tratada, essa lesão tem um prognóstico ruim: ela tende a regredir formando uma cicatriz escura chamada “mancha de Fuchs”, acompanhada de atrofia progressiva que pode levar a uma queda visual severa (20/200 ou menos em até 96% dos casos após 10 anos).
O Tratamento: Ciência e Esperança A boa notícia é que a medicina evoluiu enormemente. Estudos de peso (como REPAIR, RADIANCE e MYRROR) comprovaram que as injeções com terapias anti-VEGF (como Lucentis e Eylia) melhoram significativamente a acuidade visual dos pacientes com CNV míope. Essas terapias são especialmente eficazes para lesões que não estão exatamente no centro da visão (não subfoveais), podendo levar ao desaparecimento completo da CNV sem o desenvolvimento de atrofia.
Além disso, acompanhamos outras alterações estruturais pelo OCT, como a Dome-Shaped Macula (uma protrusão convexa causada por espessamento da esclera, presente em 20% dos casos) e a Maculopatia Tracional Míope (onde a rigidez da retina interna causa tração, exigindo, em alguns casos, cirurgia de vitrectomia cuidadosa).
Se você tem alta miopia, o acompanhamento oftalmológico especializado não é apenas recomendado, é vital. A detecção precoce de rupturas ou novos vasos muda completamente o prognóstico da sua visão. Agende sua avaliação e vamos cuidar juntos da saúde dos seus olhos com a mais alta precisão técnica e humana!