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Neovascularização Quiescente na DMRI: O Que Seus Olhos Estão Tentando Nos Dizer?

Por Dra. Louize Galletti

A Degeneração Macular Relacionada à Idade (DMRI) é reconhecida como a causa mais comum de perda de visão no mundo desenvolvido. No entanto, nem todos os diagnósticos de DMRI comportam-se da mesma maneira. Frequentemente, recebo pacientes em meu consultório preocupados com o aparecimento de vasos sanguíneos anormais no fundo do olho, uma condição conhecida como neovascularização de coroide (NVC).

Recentemente, estudos aprofundados lançaram uma nova luz sobre um subtipo específico dessa condição: a Neovascularização de Coroide Quiescente. Mas o que isso significa para a sua visão? Hoje, vou interpretar as evidências científicas mais atuais para explicar por que, em alguns casos, observar atentamente é a melhor medicina.

A neovascularização quiescente é uma forma de lesão neovascular que, embora presente, não apresenta os sinais clássicos de atividade, como vazamento de fluido ou sangramento na retina. Ao contrário da forma exsudativa (úmida) da doença, que requer tratamento imediato, esses casos são frequentemente assintomáticos e descobertos durante exames de imagem multimodais.

O Que é a Neovascularização “Adormecida”?

Pacientes com essa condição podem apresentar metamorfopsia (distorção da imagem) ou redução da sensibilidade retiniana local, mas, curiosamente, não mostram sinais de exsudação intra ou subretiniana nos exames iniciais. A grande questão que nós, oftalmologistas, enfrentamos é: devemos tratar imediatamente ou esperar?

A Importância do Monitoramento: O Que a Ciência Diz

Um estudo retrospectivo importante acompanhou olhos com NVC quiescente virgem de tratamento por um período médio de 40 meses. Os resultados foram reveladores e nos ajudam a guiar o tratamento clínico:

1. Nem todos os casos progridem: Surpreendentemente, cerca de 57,9% dos olhos monitorados permaneceram quiescentes, ou seja, não desenvolveram exsudação retiniana durante todo o período do estudo.

2. A taxa de conversão: Por outro lado, 42,1% dos olhos progrediram para a forma exsudativa da DMRI, com taxas de exsudação de 8,7% no primeiro ano e 15,8% em dois anos.

Isso reforça que a neovascularização quiescente parece ser uma forma de lesão com baixa taxa de ativação ao longo do tempo, mas que exige vigilância constante.

O Biomarcador Decisivo: Altura vs. Largura

Para prever quais pacientes têm maior risco de a doença “acordar” e prejudicar a visão, analisamos a anatomia da lesão através da Tomografia de Coerência Óptica (SD-OCT). O detalhe técnico mais importante que observamos é o Descolamento do Epitélio Pigmentar (DEP).

O formato desse descolamento é um preditor crucial:

DEP Plano: Lesões que crescem preferencialmente na horizontal (aumentando o diâmetro linear) tendem a permanecer estáveis e não exsudativas.

DEP Elevado (Pico): O crescimento vertical é o grande sinal de alerta. Olhos que converteram para a forma exsudativa apresentaram um crescimento preferencial da altura máxima do DEP.

Estatisticamente, a conversão para a forma ativa da doença foi significativamente mais frequente em lesões com altura máxima superior a 140 µm. Portanto, a aparência vascularizada do DEP no exame de OCT funciona como um “biomarcador de ativação” preditivo. Se a lesão começa a ficar mais alta (“peaked”), o risco de exsudação aumenta drasticamente.

Por Que Não Tratar Imediatamente?

Pode parecer contra-intuitivo não tratar um vaso anormal assim que ele é detectado. No entanto, a ciência sugere que a NVC quiescente pode funcionar como um mecanismo compensatório. Esses vasos podem estar crescendo em resposta a uma retina externa isquêmica, fornecendo oxigênio e nutrientes vitais que, teoricamente, protegem contra a atrofia geográfica e preservam a acuidade visual.

De fato, nos casos que permaneceram quiescentes, não houve diferença significativa na acuidade visual ao longo do tempo. O tratamento com injeções anti-VEGF é geralmente iniciado apenas após a detecção de exsudação sintomática.

Tecnologia de Ponta no Diagnóstico

Para tomar essas decisões com segurança, utilizo o que há de mais moderno em imagem. Embora a angiografia com indocianina verde (ICGA) tenha sido tradicionalmente usada, ela é invasiva e pode causar reações alérgicas.

Hoje, a Angiografia por Tomografia de Coerência Óptica (OCTA) é uma ferramenta revolucionária e não invasiva. Ela nos permite visualizar a rede neovascular em grande detalhe morfológico sem a necessidade de injeção de contraste. O estudo mostrou que a área da neovascularização tende a crescer ao longo do tempo no OCTA, mesmo nos casos estáveis, confirmando a necessidade de diferenciar crescimento anatômico de atividade exsudativa.

Conclusão: O Segredo é o Acompanhamento Próximo

A mensagem que deixo para meus pacientes é de cautela otimista. Ter uma neovascularização quiescente não é uma sentença imediata de perda visual. No entanto, o crescimento da altura da lesão no exame de OCT pode ser um sinal de progressão para formas mais agressivas de maculopatia.

Por isso, um acompanhamento rigoroso (“close follow-up”) é a recomendação padrão para identificar precocemente os biomarcadores de ativação. Com a tecnologia atual e visitas regulares ao oftalmologista, podemos detectar o momento exato em que a intervenção se torna necessária, preservando ao máximo a sua visão.

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Referência Base: Serra R, et al. Predictive Activation Biomarkers of Treatment-Naive Asymptomatic Choroidal Neovascularization in Age-Related Macular Degeneration. Retina. 2019.

Com vasta experiência e dedicação à saúde ocular,
Dra. Louize oferece um atendimento personalizado e de excelência, priorizando sempre o bem-estar e a qualidade
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