Por Dra. Louize Galletti
Olá, sou a Dra. Louize Galletti, médica oftalmologista especialista em Retina e Vítreo pela Sociedade Brasileira de Retina e Vítreo (SBRV) e Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO). Hoje, quero conversar com você sobre um tema de extrema importância na oftalmologia e que frequentemente gera dúvidas no consultório: as Oclusões Venosas da Retina.
Com o envelhecimento da população, cuidar da saúde ocular se torna cada vez mais vital. Este artigo foi desenhado para explicar de maneira simples, porém com todo o embasamento técnico necessário, como essa condição se desenvolve, quais são os riscos e os tratamentos mais modernos disponíveis.

A oclusão venosa da retina é, hoje, a segunda causa mais frequente de doença vascular da retina. Imagine a sua retina como um tecido altamente complexo que precisa de um fluxo sanguíneo contínuo para funcionar perfeitamente. Em algumas situações, ocorre o que chamamos de obstrução mecânica.
Isso é muito comum nos cruzamentos arteriovenosos da retina, onde uma artéria e uma veia compartilham a mesma “capa” (camada adventícia). Quando a artéria apresenta paredes espessadas e rígidas (devido à arteriosclerose), ela pode comprimir a veia adjacente. Esse “esmagamento” gera uma turbulência no fluxo venoso, provocando dano endotelial, hipertrofia da veia e a formação de trombos. Todo esse processo faz parte da famosa “Tríade de Virchow”, que resulta em uma lesão direta na parede vascular.
A oclusão pode acometer um ramo da veia (ORVR), que ocorre mais comumente no quadrante temporal superior da retina, ou a veia central (OVCR), que frequentemente resulta em uma perda visual mais grave e irreversível.
A distribuição dessa doença é semelhante entre homens e mulheres, com um pico de incidência que ocorre, na maior parte das vezes, entre os 60 e 79 anos de idade. O envelhecimento, por si só, é um fator de risco primordial.
Entretanto, precisamos estar muito atentos às doenças sistêmicas associadas. Quase metade dos casos (48%) está ligada à Hipertensão Arterial Sistêmica (HAS). Outros fatores de grande impacto incluem:
- Dislipidemia (colesterol alto) em 20% dos casos;
- Diabetes mellitus em 5%;
- Tabagismo (em torno de 10%);
- Glaucoma e obesidade.
Em pacientes mais jovens, ou quando a doença afeta os dois olhos (quadros bilaterais), investigo sempre distúrbios de coagulação (como o fator V de Leiden, hiper-homocisteinemia e deficiência de proteínas C e S) e vasculites retinianas.
O paciente geralmente percebe uma perda visual súbita e indolor, defeitos no campo visual ou o aparecimento de “moscas volantes” (manchas flutuando na visão).
O grande problema da oclusão venosa é o que ela gera na retina. A obstrução eleva a pressão dentro dos vasos, causando um extravasamento de líquido, o que chamamos de Edema Macular. Além disso, a falta de oxigênio (isquemia) faz com que o olho produza substâncias para tentar criar novos vasos sanguíneos. O principal “vilão” dessa história é uma proteína chamada VEGF. O excesso de VEGF piora o edema e pode gerar neovascularização, levando a complicações como hemorragia vítrea e um quadro gravíssimo chamado glaucoma neovascular.
Uma avaliação multimodal detalhada é absolutamente essencial. No consultório, utilizo exames de ponta como a Tomografia de Coerência Óptica (OCT), que me permite visualizar a presença do edema macular e a integridade das camadas da retina.
Outro exame fundamental é a Angiografia Fluoresceínica, que ajuda a diferenciar os quadros isquêmicos dos não isquêmicos, detectando o extravasamento de corante e áreas onde não há perfusão capilar (áreas de isquemia maiores que 5 diâmetros de disco óptico indicam um critério diagnóstico importante). Também utilizamos a evolução tecnológica do OCT-A para ver a isquemia macular em detalhes sem precisar de contraste.
A mensagem mais importante que posso deixar é: Edema macular significa tratar cedo!. Quanto mais rápida for a nossa ação, maiores as chances de sucesso terapêutico.
Hoje, o pilar do tratamento são as injeções intraoculares de anti-VEGF, que combatem diretamente o fator causador do vazamento e da neovascularização. Grandes estudos científicos que guiam a nossa prática (como o estudo BRAVO, VIBRANT e RETAIN) mostraram resultados fantásticos no ganho de visão utilizando medicamentos como o Ranibizumabe e o Aflibercepte.
Recentemente, a ciência avançou ainda mais. Estudos recentes como o QUASAR avaliaram o Aflibercepte de alta dose (8 mg), e os estudos BALATON e COMINO avaliaram o Faricimabe (que inibe o VEGF-A e a Angiopoietina-2 simultaneamente). Essas inovações têm o grande potencial de permitir intervalos maiores entre as injeções (de até 16 semanas), oferecendo mais conforto ao paciente. Também contamos com o Bevacizumabe, uma excelente opção terapêutica que, conforme estudos, apresenta eficácia semelhante aos demais anti-VEGFs.
Em alguns cenários específicos, podemos utilizar implantes de corticosteroides, como a Dexametasona (estudo GENEVA), que traz ótima melhora visual, exigindo, porém, atenção rigorosa a possíveis aumentos de pressão ocular (glaucoma) e formação de catarata. Já a fotocoagulação a laser, antigamente o único tratamento disponível, hoje possui um papel bem focado, sendo utilizada para prevenir hemorragias severas causadas pela neovascularização na retina isquêmica (estudo BVOS).
Classificar a doença corretamente e iniciar o tratamento de forma individualizada muda o prognóstico. A isquemia requer vigilância ativa de nossa parte, mas o seu controle sistêmico em casa (cuidando da hipertensão, diabetes e colesterol) impacta diretamente e fortemente no seu desfecho visual. Se você possui os fatores de risco ou notou alguma alteração visual, não espere. Tratar a tempo salva a visão.